Cognitivo Musical - 2ªparte
8. Discussão e Conclusão
De acordo com os dados encontrados e analisados, em relação ao questionário direcionado aos pais, foram encontradas respostas que estão associadas a uma grande sensibilidade à música. Todos os participantes estão relacionados com a música, seja diretamente (tocando, compondo, improvisando, participando de atividades musicais, etc.) ou indiretamente (ouvindo com bastante freqüência, memorizando as músicas e suas letras, o intérprete, etc.). Todos os participantes apresentam reações expressivas quando ouvem algum determinado tipo de música. Neste caso, a conclusão é de que os portadores da Síndrome de Williams brasileiros são ligados e sensíveis à produtos sonoros musicais e não-musicais. De qualquer forma, um estudo mais elaborado e preciso poderia comparar se esta relação com a música é densa o bastante comparado a outros grupos, como o de pessoas com outras síndromes, pessoas com outros tipos de deficiências mentais, congênitas e/ou de pessoas em desenvolvimento (Levitin et al., 2004).
Um dado com maior importância no questionário diz respeito às características auditivas dos portadores da síndrome. Com as respostas sobre a relação com os sons, pôde-se perceber que as pessoas com Síndrome de Williams brasileiras participantes no projeto não apresentam como principal característica a "hiperacusia", como é costumeiramente divulgado na literatura pela associação primária entre Síndrome de Williams e audição (Gothlef et al., 2006). Segundo o questionário, podem-se encontrar alguns dados paralelos ao estudo de Levitin (2005, p.515) para as características auditivas dos participantes, que reforçam a idéia de que a semântica da "hiperacusia" ainda não está transparente. Segundo o questionário, nenhum dos pais relata que seus filhos apresentam ou já apresentaram a hiperacusia. Mas 80% dos participantes apresentam a "Odinacusia" (a sensação dolorosa ou desconfortável a certos tipos e dinâmicas de som), assim como 70% dos participantes relatam a "Fascinação Auditiva" (a atração ou fascinação por certos tipos de som), tanto para sons musicais quanto para sons não-musicais. A "Alodinia Auditiva" (uma aversão ou medo de sons que não são aversivos) foi relatada, em menor número, como casos de portadores que deixaram de sentir aversão, medo, ou sensações desconfortáveis a certos sons através de um tratamento profissional (como terapia ocupacional, psicopedagogia, etc.). De qualquer modo, um estudo mais aprofundado, com um maior número de participantes e uma classificação precisa destes quadros clínicos poderão ser de grande valia para complementar a discussão desta questão.
Ao que diz respeito aos testes de apreciação, os dados coletados revelam que os portadores da Síndrome de Williams brasileiros podem dar respostas concisas e fundamentadas no modelo espiral de desenvolvimento de Swanwick e Tillman. O primeiro teste revela que 90% dos participantes podem notar uma diferença no timbre da audição do primeiro par ("Ciranda, Cirandinha"). Esta diferença no timbre, e sua identificação, estão ligadas à primeira fase do modelo (a fase Sensorial). No segundo par ("Jingle Bell"), o mesmo número de participantes pode notar uma diferença no tratamento de materiais musicais (os trinados, tremolos, etc.). Esta distinção é ligada à segunda fase do modelo (a fase Manipulativa). A audição do terceiro par ("Marcha Soldado") revela que 70% dos participantes podem notar a diferença na distinção da modulação e mudança de caráter musical (pela harmonia), o que está diretamente ligado à terceira fase do modelo (Expressão Pessoal). A audição do quarto par ("Noite Feliz") pode mostrar que 80% dos participantes conseguiram discernir a diferença nos diferentes modos das frases (com alterações de métrica, adição de floreios, silêncios, etc.), o que está ligado à quarta fase do modelo (a Vernácula). A quinta audição do primeiro teste ("Parabéns a Você") mostra que 90% dos participantes podem perceber a diferença na mudança de fórmula de compasso (o que descaracterizou o caráter musical que era esperado da primeira audição), ligado à quinta fase do modelo (a Especulativa).
Então, com estes dados acima, outra conclusão é a de que os portadores da Síndrome de Williams brasileiros podem ser avaliados na apreciação musical com êxito, atingindo o objetivo de conseguirem perceber tais diferenças sonoras. Mas, quando pedidos para justificarem sua resposta, nem todos os participantes dos dados acima conseguiram fundamentar sua explicação no que era proposto na avaliação do teste. Sendo assim, o número de participantes que conseguiu perceber o que aconteceu de diferente na mesma música e ainda explicar a diferença cai em todas as audições do primeiro teste (e este número não ultrapassa em nenhum momento 50% do total de participantes). Entretanto, uma explicação para a queda pode estar no nervosismo dos participantes na hora do teste. Um estudo com um grupo de portadores maior e mais versátil em sua coleta de dados pode complementar melhor este fator.
Os dados do segundo teste mostram que os participantes puderam identificar melhor as diferenças nos pares a que as igualdades. De qualquer modo, a média de acertos em todo o segundo teste pode concluir que os portadores da Síndrome de Williams brasileiros podem identificar auditivamente as diferenças e igualdades nos produtos sonoros, que no projeto estão associados à dimensão "Sensorial" do modelo espiral.
Cabe aqui ressaltar que um único participante dos testes (10% do total) conseguiu responder a maioria das questões, com 80% de eficácia no primeiro teste e com 90% de eficácia no segundo, tendo assim o melhor desempenho nas apreciações (incluindo ser o único a conseguir dar uma resposta referente à fase Especulativa, primeira da dimensão de Forma). Tal participante é um dos portadores que participa de atividades musicais, toca um instrumento regularmente, e segundo o questionário, tem uma maior freqüência de treinos e aulas de música. Cabe então levantar a questão de que os portadores da síndrome de Williams não nascem com uma capacidade inata de facilidade musical, mas esta facilidade é sim adquirida com uma atenta Ed. Musical adequada e direcionada às suas limitações e suas capacidades, para sim, ter uma melhor eficácia no fazer, ouvir, compor e apreciar música.
Os dados do terceiro e último teste da apreciação musical revelam que os participantes só tiveram um consenso em associar o trecho ouvido a uma sensação ou sentimento na música "Mond Tanz". Os outros trechos não apresentam o mesmo tipo de dado, mas números mais variados, o que leva à conclusão de que os portadores da Síndrome de Williams brasileiros não associam uma mesma música da igual maneira, e mesmo com suas características físicas e psicológicas, cada um dos portadores pode associar a música de modos diferentes entre si.
Por fim, cabe ressaltar que, como os estudos envolvendo Música e Síndrome de Williams não são numerosos, em especial no contexto brasileiro, futuros estudos nesta área poderão validar com maior eficácia tais resultados e conclusões.
9. Referências Bibliográficas
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10. Anexos
Anexo 1
Formulário de Consentimento
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ
O Desenvolvimento cognitivo-musical na Síndrome de Williams sob a ótica do modelo espiral de desenvolvimento musical de Swanwick & Tillman
Formulário de Consentimento
Pesquisador
Henrique Vivi
Professora Responsável
Dra. Beatriz Ilari
É do meu conhecimento que:
- A minha participação nesta pesquisa é voluntária;
- Todos os dados contidos nesta pesquisa são confidenciais e a identidade dos participantes será mantida. Ninguém terá acesso às informações adquiridas, a não ser os pesquisadores;
- Tenho o direito de não responder às perguntas que não queira e posso descontinuar a minha participação a qualquer momento, sem nenhum prejuízo.
Nome:___________________________________
(Cidade), _______ de______________ de 2007
Assinatura:______________________________
Caso queira receber o resultado desta pesquisa, preencha os campos abaixo:
Endereço:________________________________________________ n.º ___________
Bairro: ______________________________ Complemento: ____________________
Cidade: __________________________ Estado: _______ Cep: __________________
E-mail: _________________________________________________________________
Telefone: (___) ___________________________________________________________
DEPARTAMENTO DE ARTES DA UFPR – DEARTES
Rua Coronel Dulcídio, 638 – Batel – CEP 80420.170 – Curitiba –PR
Telefone: (41) 3224-9915/3222-6568/Fax: (41)3222-6568
Anexo 2
Questionário aos Pais dos filhos com a síndrome de Williams
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ
O Desenvolvimento cognitivo-musical na Síndrome de Williams sob a ótica do modelo espiral de desenvolvimento musical de Swanwick & Tillman
Questionário aos pais ou responsáveis
Pesquisador
Henrique Vivi
Professora Responsável
Dra. Beatriz Ilari
Nome Completo:___________________________________________________________
Sexo: ( )M ( )F Idade:___________________
Nome do pai ou responsável:_______________________________________________
Como seu filho(a) foi diagnosticada com a Síndrome de Williams?
( ) Teste do FISH
( ) Diagnóstico médico psicológico
( ) Pelas características físicas
( ) Outro: (especifique) ____________________________________________________
Seu filho(a) já teve problemas de audição? Se sim, especifique:
Seu filho(a) teria algum outro tipo de problema NÃO AUDITIVO que poderia prejudicar seu desempenho num teste musical? Se sim, especifique:
Seu filho(a) já apresentou ou apresenta sensibilidade aos sons? Se sim, especifique com qual idade esta sensibilidade começou e a que tipo de sons:
Seu filho(a) tem algum interesse não usual por algum tipo de som, ruído, ou barulho de qualquer coisa? Se sim, especifique quais:
Seu filho(a) toca algum instrumento musical? Se sim, qual (ou quais)? Especifique ainda como ele aprendeu a tocar (com um amigo, com aulas de música, "de ouvido", com os pais, etc.):
Com que freqüência seu filho(a) ouve música durante o dia? Especifique também se é no computador, rádio, TV, etc.
Qual o(s) tipo(s) musical(is) favorito(s) que seu filho(a) gosta de ouvir e/ou cantar?
Existe alguma atividade musical que o seu filho(a) participa? Se sim, especifique qual (ou quais):
Seu filho(a) tem algum tipo de reação emocional ao ouvir quaisquer tipo de músicas? Se sim, especifique: que tipo de música (o estilo musical ou de algum cantor/grupo), e que tipo de reações ele costuma ter (se ele fica alegre, triste, extasiado, desanimado, choroso, etc.):
Seu filho(a) tem costume de reproduzir músicas que ele ouviu cantando ou tocando algum instrumento? Especifique que tipo de músicas e como ele reproduz (cantando junto, batendo o ritmo junto, "cantarolando" depois de ouvi-la, tocando a melodia da música num outro instrumento, etc.):
Seu filho(a) costuma decorar músicas ou pedaços de música que ele ouviu? Se sim, especifique qual a freqüência destas músicas e que tanto da música ele costuma reproduzir (apenas um pedaço, a letra, cantando no ritmo, o refrão, só o começo, etc.):
Seu filho(a) costuma compor músicas? Se sim, diga como ele o faz, e que de tipo de caráter são estas estruturas (com ritmo, só cantando, com instrumento, músicas alegres, felizes, com palavras, sem palavras, etc.):
Adicione aqui qualquer outro comentário que você tenha (ou queira) a dizer sobre seu filho(a) sobre música ou qualquer tipo de informação a ver com a audição dele: